Lançado originalmente em 2019 como exclusivo do extinto Google Stadia, Gylt ganhou nova vida ao ser relançado para múltiplas plataformas em 2023, incluindo PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox One, Xbox Series X/S e PC. Desenvolvido pelo estúdio espanhol Tequila Works, o mesmo responsável por títulos como Rime e Deadlight, Gylt é uma aventura de horror leve com elementos de stealth e puzzle. No entanto, o que realmente diferencia o jogo é sua abordagem emocional e simbólica, explorando temas profundos como bullying, medo e isolamento.
O Labirinto dos Sentimentos
A protagonista da história é Sally, uma menina tímida que vive em uma cidade fictícia chamada Bethelwood. Ela está em busca de sua prima desaparecida, Emily, que sofre bullying na escola. A busca a leva até um universo sombrio e distorcido da cidade, uma espécie de versão alternativa onde os medos, traumas e culpas se manifestam em forma de monstros, ambientes abandonados e memórias distorcidas.
Ao longo da jornada, Sally enfrenta horrores que simbolizam não apenas os perigos externos, mas também os conflitos internos que ela e Emily enfrentam. O mundo de Gylt funciona como uma metáfora da psique infantil, abordando de forma sensível o impacto psicológico do isolamento e do sofrimento silencioso causado pelo bullying.
Um Mundo Belo e Assustador
Gylt impressiona com sua direção de arte estilizada, que mistura elementos de desenhos animados sombrios com um toque de realismo. A atmosfera é melancólica, com cenários escuros, ruas desertas, escolas abandonadas e hospitais sinistros. A paleta de cores utiliza tons frios e sombras intensas para reforçar a sensação de desamparo e solidão.
O design de som também contribui fortemente para a imersão. Ruídos sutis, sussurros distantes e trilha sonora discreta, mas eficaz, aumentam a tensão sem recorrer a sustos fáceis. É um terror mais psicológico e atmosférico, ideal para jogadores que gostam de uma experiência mais emocional e introspectiva.
Jogabilidade Stealth, Puzzle e Aventura
A jogabilidade de Gylt é acessível e centrada em três pilares principais: exploração, furtividade e resolução de quebra-cabeças.
Exploração
Sally percorre diferentes áreas da cidade corrompida, coletando pistas, interagindo com objetos e avançando por caminhos bloqueados. A progressão é linear, mas há espaços secretos e colecionáveis que incentivam a curiosidade.
Furtividade
Como uma criança comum, Sally não possui armas tradicionais. Sua principal ferramenta é uma lanterna, que pode ser usada tanto para iluminar ambientes quanto para dissuadir ou eliminar certas criaturas. Em muitos momentos, o jogador precisa se esconder, andar agachado, distrair inimigos ou fugir silenciosamente.
Quebra-cabeças
Os puzzles variam entre mover objetos, ativar mecanismos e descobrir senhas, exigindo raciocínio e observação do ambiente. Eles são bem integrados à narrativa e mantêm o ritmo do jogo interessante, sem torná-lo excessivamente desafiador.

Narrativa Silenciosa, Mas Impactante
Gylt evita diálogos longos ou exposições forçadas. A maior parte da narrativa é contada através do ambiente, dos objetos encontrados e das próprias expressões faciais e corporais de Sally. Há cutscenes e momentos importantes que ajudam a esclarecer a trama, mas muito fica implícito, permitindo que o jogador interprete e reflita por conta própria.
O jogo toca em temas delicados , como o sentimento de culpa de quem presencia bullying e não sabe como agir, ou a angústia da vítima que sente que ninguém a escuta. Gylt convida à empatia e à reflexão, especialmente para um público jovem-adulto que reconhece o peso dessas experiências.
Duração e Ritmo
Com cerca de 5 a 7 horas de duração, Gylt é um jogo relativamente curto, mas bem ritmado. Não há momentos de enrolação ou repetições desnecessárias. Cada fase traz novos desafios, cenários e revelações sobre a história de Emily e Sally. O jogo oferece também múltiplos finais, dependendo das ações do jogador ao longo da jornada, incentivando a rejogabilidade.
Público-Alvo e Acessibilidade
Gylt é ideal para jogadores que gostam de jogos narrativos, com atmosfera envolvente e jogabilidade simples, mas significativa. Ele pode ser jogado por adolescentes e adultos, já que seu terror não é gráfico ou violento, mas sim simbólico e emocional.
A interface é limpa, os controles são intuitivos, e há opções de acessibilidade para tornar a experiência mais confortável para diferentes perfis de jogador.
Pontos Positivos e Negativos
Pontos Positivos:
Narrativa emocional e simbólica;
Atmosfera única e sombria;
Estilo visual bonito e coerente;
Jogabilidade acessível e equilibrada;
Temas sociais tratados com sensibilidade.
Pontos Negativos:
Curta duração pode desagradar alguns;
Baixa dificuldade para jogadores hardcore;
Pouco incentivo para exploração após zerar.
Uma Jornada Curta, mas Marcante
Gylt é um jogo que toca o coração, especialmente de quem já vivenciou ou presenciou situações de exclusão, bullying ou tristeza silenciosa. Ele não busca impressionar com gráficos super realistas ou ação desenfreada, mas sim com uma história sensível, uma ambientação envolvente e uma mensagem poderosa sobre empatia, coragem e superação.
Mesmo sendo curto, Gylt permanece na memória muito depois dos créditos finais e isso é um mérito raro no mundo dos games.
